lunes, 18 de julio de 2011

O Uruguai e o canto do ringue

O canto do ringue é muito mais do que um espaço físico. Muito mais do que o córner de um tablado de lutas, onde geralmente fica o combatente que está em desvantagem, o canto do ringue é na verdade um estado de espírito, uma oportunidade ímpar de separar homens e meninos, de mostrar superação e capacidade de suportar provações. Quem tem caixa para se superar. Tenho essa convicção. Dava até um filme, livro ou coisa que o valha. “O Canto do Ringue”. Ainda farei! Estar no canto do ringue é o momento em que sabemos quem joga a toalha, quem sucumbe ou descobrimos quem é resiliente, para usar a nova-palavra-conceito da moda, aquela bola da vez entre alguns charlatões que adoram inventar um blá-blá-blá para levar um qualquer dizendo-se modernos.

Pois ninguém andou mais pelo canto do ringue no cenário do futebol mundial nos últimos anos do que o Uruguai. De tudo se falava dos gloriosos celestes. Decadentes, incapazes de renovar, bobos que confundiam raça com destempero...E tome decepções...Em silêncio, sem que se percebesse, uma revolução foi iniciada naquele país, em várias frentes, para salvar o futebol charrua. Tendo um líder inconteste à frente, o Maestro Oscar Tabárez.

Colonizados, muito mais entusiasmados com tudo o que é do tal “primeiro mundo”, eurocentristas e americanófilos dependendo do esporte em questão, mas sempre, por resumo, meramente colonizados, tal revolução passou ao largo por aqui de maneira geral. Só a grama que cresce na Europa ou no Tio Sam presta geralmente para alguns. E a grande revolução, talvez a única que ocorre dentro e fora do campo nos últimos anos foi passando despercebida (no Barcelona também aconteceu uma revolução, mas apenas dentro do campo, retomando formas mais clássicas do futebol, aliado a preceitos modernos). Era no Uruguai.

De certa forma, conheci o que é um pouco o tal canto do ringue uruguaio ao escrever sobre tal revolução lá atrás aqui nesse blog, em 18 de fevereiro. Falava sobre tal revolução no dia seguinte a uma fragorosa derrota dos sub-20 celestes, por 6 x 0 para o Brasil. Não é fácil falar de revolução num dia seguinte a um 6 x 0. Tome pancada. Mas tal revolução uruguaia é tão estruturada, consciente e sabedora dos seus destinos e razões, que independe de resultados. Eles acabam vindo por conseqüência de um trabalho honesto. Quando se tem uma ideologia, convicção, os resultados eventualmente ruins, audiência, marcas, são possíveis de serem suportados. Nesse caso, o canto do ringue é lugar de reflexão, de amadurecer convicções, de enxergar a luta. É esse Uruguai, saído do canto do ringue, que segue sua trajetória com Oscar Tabárez.

Republico abaixo o texto que escrevi em 18 de fevereiro. Contém alguns detalhes dessa revolução, os bastidores e razões, dentro e fora do campo para a única revolução que acontece no futebol mundial nos últimos tempos. Curiosamente, revejo agora que encerrava dizendo que voltaríamos ao assunto. E estou certo de que este é um assunto para voltarmos muitas vezes ainda. Nesse momento em que o modelo brasileiro, baseado apenas no talento magnífico de sua mão de obra, tão espetacular (e aqui não há ufanismo) que somos capazes de chegar mesmo com a mais incompetente gestão esportiva do mundo, parece dar mostras de ter que ser repensado, é sempre bom pensarmos em homens como Oscar Tabárez e na revolução que acontece no país vizinho, onde um universo de apenas 3 milhões de pessoas vai sendo mais fértil do que um de 200 milhões. E onde acima de tudo, a preocupação com o ser humano está acima de tudo.


A MAIOR REVOLUÇÃO DO FUTEBOL ESTÁ NO URUGUAI
(18 de fevereiro de 2011- Lúcio de Castro)

Alguma coisa está fora da ordem mundial do futebol. E se chama Uruguai. A goleada sofrida na final do Sub-20 contra os brasileiros não pode de maneira alguma apagar a coisa mais digna, revolucionária e humana que está se fazendo no cenário do futebol atual: o exemplar trabalho de base realizado no Uruguai desde 2006, idealizado desde a chegada de Oscar Tabárez na seleção principal e coordenando todas as categorias. E com ele, um personagem pouco conhecido mas com um trabalho modelo e espetacular, um dos profissionais mais brilhantes que conheci nesse meio: o psicólogo Gabriel Gutierrez.

Os resultados não são o mais relevante nesse caso. Nem mesmo a inquestionável escalada da “Celeste Olímpica” nos últimos anos. Não é tão relevante o sucesso na última copa do mundo, a classificação para as Olimpíadas de Londres no ano que vem, depois de 84 anos de ausência, comprovando que algo de diferente mesmo acontece, e não serão relevantes eventuais resultados ruins. Quando um trabalho é sólido, eventuais resultados não podem ser o fator preponderante. É mais ou menos como audiência em tv: coisas tenebrosas bombam, batem recordes de ibope, e coisas como os especiais do Geneton devem dar traço. Azar do ibope.

Existem diversos caminhos para a vitória, sem fórmulas matemáticas. Comentar em cima de resultado, além de erro, é vergonhoso. Comentários devem ser em cima de trabalhos. Pois se existe um trabalho que deveria ser analisado, comentado e divulgado por todos, é o trabalho de base realizado no Uruguai. Pelos aspectos técnicos também, conquistas, mas acima de tudo, por ser exemplo de trabalho voltado para o ser humano, como jamais foi feito aqui no Brasil, e me parece tão distante ainda de acontecer. Vale a pena um breve mergulho no país vizinho para conhecermos um pouco do que está se fazendo por lá e deveria ser feito aqui. Urgentemente, para ontem.

A militância e o especial interesse por categorias de base, por entender que lá estão as maiores aberrações realizadas nesse mundo do futebol me chamaram atenção para o Uruguai há algum tempo. Algo de novo acontecia por lá. Comecei a ter contato com os responsáveis em diversos sul-americanos sub-15, sub-17, e a tentar conhecer o que acontecia. Uma revolução silenciosa estava em andamento. Uma revolução de humanistas, de gente com escrúpulos e de bem, em um mundo da bola onde geralmente só o dinheiro interessa, e como já vimos e falamos aqui tantas vezes, meninos são tratados como bichos em criadouros até os 18 anos, quando a ampla maioria é devolvida para a sociedade como o que foram criados: bichos.

Era diferente aquele Uruguai que tanto me chamava a atenção. De um “maestro” e líder, o simpático Oscar Tabárez, capaz de discorrer sobre botânica, história, política e filosofia em um papo, além de deliciosas histórias sobre o futebol de ontem e hoje. Assim que assumiu, mudou o rumo da história dos seus comandados. Estudar era preciso, e em cada seleção de base, os meninos eram incentivados e as condições para tal eram criadas. Muito diferente do cenário brasileiro, onde os bichos são confinados em alojamentos por meses, anos, saindo, tal e qual bichos mesmo, apenas para treinamentos. A mente sendo deixada atrofiada...E depois não entendem minha revolta quando vejo o cara sendo criticado porque virou um bicho, quando faz bobagem, e não o sistema que criou esses bichos...

Procurei me aprofundar mais um pouco sobre aquilo que acontecia no Uruguai. A tal revolução que começava a ver. Que tinha começado de forma surpreendente: em um país de três milhões de habitantes apenas, sem a mesma base larga de observação como o Brasil, o primeiro passo para a renovação do futebol uruguaio foi uma imensa peneira pelo país, ainda em 2006, para compor as seleções de base. Feito isso, selecionados jogadores, o estudo passou a ser tão importante quanto treinos de campo e físicos.

Ainda em 2007, procurei o psicólogo Gabriel Gutierrez, braço direito e peça fundamental no trabalho de Oscar Tabárez com garotos da base. Encontrei ali convicções e ideologia, certezas muito acima de resultados eventuais, e uma imensa preocupação com ser humano acima de tudo. Muito diferente de tudo o que eu já havia visto no futebol e da nossa máquina de moer gente das categorias de base. Repasso aqui trechos da entrevista brilhante que Gabriel, que segue até hoje em todas as seleções de base uruguaias e também esteve na África do Sul com a seleção principal em 2010, me concedeu em 2007. Discorria sobre o quanto é fundamental fazer esses meninos da base completarem os estudos e do crime que é relegar isso em detrimento da ganância e de interesses maiores.

Gabriel Gutierrez:

Menos de um por cento chega a ser profissional. Seria muito irresponsável estimular que o futebol é a salvação, quando a estatística marca que 99% não irão se salvar”.

Falar com os pais é fundamental, mas creio que as instituições esportivas tem que divulgar essas cifras, que são duras, e estabelecer políticas, nas quais, quem está participando do processo esportivo não abandone os estudos, que consolidem sua personalidade. É tarefa dos adultos porque em algum momento os prejudicados serão esses 99%, que em algum momento vão reclamar. Um dia eles se perguntam: ‘Por que não me disseram que esse caminho não era seguro, me disseram tantas vezes que ia chegar’. O menino tem 12, 14, 15 anos, e há adultos, que, com pouca responsabilidade, estimulam, estimulam e depois quando esse menino, ou adulto está só, não vê ninguém ao redor, para dizer que agora tem 20, 25, 30 anos, e futebol te disse que não, e está só na vida”.

É obrigatório exigir o estudo como plano A ou B como atividade fundamental porque as cifras do futebol são muito duras

Alguns aspectos dessa revolução charrua devem ser ressaltados:

- A seleção sub-20 uruguaia do sul-americano no Peru já é fruto dessa experiência incrível e dessa revolução de costumes e modos que vai se processando no Uruguai. Dez dos 22 acabaram o segundo grau, sendo que todos acabaram o primeiro grau. Alguns ingressaram na universidade. Não tenho os números aqui, mas provavelmente, nas outras seleções da competição, seja um milagre encontrar algum jogador com segundo grau completo, salvo um esforço individual imenso. Repito: 10 jogadores da sub-20 uruguaia terminaram o segundo grau.

- Lideranças são estimuladas, ao contrário do comportamento de “boizinhos de presépio” geralmente estimulado no futebol de uma maneira geral. O capitão Diogo Polenta é capitão desde a seleção Sub-15, passando pela sub-17.

- A presença e a liderança de Oscar Tabárez vai muito além de algo superficial, um jogar para a torcida. O “Maestro”, como é chamado no Uruguai, comparece a praticamente todos, exatamente isso, praticamente todos os treinamentos das seleções sub-15, sub-17 e sub-20. E se necessário, sem maiores melindres, entra em campo, corrige o necessário, conversa com jogadores e treinadores.

- O estímulo para o estudo e o incentivo para o surgimento de lideranças começa a ter efeito prático no cenário uruguaio. Jogadores com maior senso crítico despontam, com suficiente postura e clarividência para se posicionarem e decidirem as coisas por si. A nova geração de talentos, a geração de Tabaréz, tem sistematicamente se insurgido contra decisões de seus empresários, e muitas vezes inclusive rompido com os poderosos do futebol uruguaio, dominado muito tempo por Juan Figger, depois por Paco Casal e mais recentemente por Daniel Fonseca. Os jovens Luis Suarez e Nicolas Lordeiro, ambos presentes em 2010 foram dois a se insurgir contra o empresário nos últimos tempos, sempre lutando por seus direitos.

- Finalizando: me incomoda profundamente toda vez que vejo louvações a “estrutura do vôlei brasileiro” na imprensa. Será admissível que meninos de 15 anos fiquem confinados no centro de treinamento de Saquarema por meses em treinamento sem estudar? Os próprios treinadores Bernardinho e Zé Roberto já se pronunciaram sobre a questão, lamentando. Toda vez que alguém louva tal “estrutura”, é cúmplice desse desrespeito ao ser humano, dessa eterna escolha por resultados em detrimento ao ser humano. Voltaremos ao assunto.

ESPN

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